Trip to the US Southwest - 2001


 
Retornamos ao Brasil em 11 de junho, após um mês de viagem pelos estados do sudoeste americano. Cristiane tem me acompanhado em minhas observações desde 1992 e completou a lista dos 110 objetos de Messier em 1998, além de conseguir ver detalhes extremamente sutis em cometas e galáxias, não sendo portanto o que chamaríamos de uma iniciante na astronomia amadora.

Dormimos muito pouco tentando conciliar a minha atividade profissional junto a algumas universidades americanas, com as visitas a mais de uma dezena de observatórios. Conseguimos acompanhar o trabalho observacional de alguns astrônomos nos grandes telescópios. Para alcançar o nosso objetivo, dirigimos 5.133 quilômetros nos 14 dias que se sucederam à Texas Star Party, o que foi extremamente cansativo. A seguir tentarei descrever sucintamente as atividades relacionadas à astronomia.

Texas Star Party (TSP 2001)


Tivemos o prazer de conhecer o Leopoldo de Araraquara, São Paulo, bastante entusiasmado e motivado com a astronomia amadora e astrofotografia. Passamos noites inesquecíveis observando através dos Dobsonianos de Larry Mitchell (91cm), Buster & Barbara Wilson (51cm), Attilla Danko (64cm), Rick Singmaster (61cm), Mike Wirths (46cm) e Bill (56cm), dentre outros. Vale ressaltar que existem no mundo apenas outros três telescópios Obsession de 36” como o de Larry; para observar um objeto no zênite tive de subir até o topo da sua escada de 4,3 metros de altura. A hospitalidade texana mais uma vez nos marcou. Recebemos os seguintes certificados pelas observações realizadas nos últimos quatro anos:
Urban Club: 100 objetos do céu profundo observados sob condições de poluição luminosa.
Southern Skies Binocular: objetos dos céus do Hemisfério Sul observados de binóculo.
Binocular Messier: objetos da lista de Messier utilizando apenas binóculos.
Herschel 400: precisei de quase 3 anos de observações para concluí-la, mas valeu a pena. Segundo o presidente da American Association of Amateur Astronomers, sou o primeiro observador do mundo a completar esta lista de 400 objetos do céu profundo a partir de um local situado no Hemisfério Sul! Após a cerimônia de entrega do Certificado de observação dos objetos da lista Herschel 400, concedemos entrevista de 35 minutos à revista Sky & Telescope.

Aluguel do Telescópio Otto Struve de 2.1 metros

Formamos um grupo de 17 astrônomos e alugamos o telescópio Otto Struve do McDonald Observatory por uma noite inteira! Foi uma noite inesquecível... Este gigante já foi o segundo maior telescópio do mundo e hoje é provavelmente um dos poucos telescópios profissionais que ainda aceitam uma ocular. A mais utilizada foi a de 32 mm, nos proporcionando um aumento de 891x com um campo de 10 minutos de arco. Trabalharam para nós um astrônomo e dois operadores. Transcrevo abaixo as minhas anotações dos objetos que observamos visualmente:
NGC 3242, Ghost of Jupiter em Hya: indescritivelmente linda com o disco interior azul/verde e o disco exterior completo, além de dois nós e da estrela central bem brilhante.
Gamma Leo: pareciam mais dois farois de carro.
QSO 0957+561, Quasar Duplo em UMa: com z=1,4, os seus fótons viajaram aproximadamente 9 bilhões de anos-luz; componentes bastante brilhantes e separados com visão direta, pareciam estrelas comuns; foi o primeiro caso de lente gravitacional descoberto em 1979.
Copeland's Septet em Leo: 8 galáxias preenchendo o campo, facilmente visíveis com visão direta.
NGC 4089, 91-93, 95 e 98 em Com: 5 galáxias num campo de poucos minutos de arco, nunca havíamos observado este bonito aglomerado antes.
Antennae Galaxies em Crv: apesar de a termos visto quase todas as noites no Chile, no telescópio de 2,1 metros eram tão inacreditáveis como vemos nas fotos do Hubble! só que sem cor; fiquei preso à ocular por quase dois minutos e foi difícil sair para dar lugar ao colega seguinte; devo confessar que retornei ao final da fila e observei novamente por mais um bom tempo; havia nebulosidade ao longo do "loop" tomando quase que todo o campo, no formato de duas argolas de uma corrente.
NGC 4361 em Crv: nebulosa planetária grande e brilhante, estrela central fácil com visão direta; a esta altura, concluí que tudo seria inacreditável e tentei parar de me espantar.
Sombrero Galaxy: o campo da ocular só comportou a região central de M104, a faixa central escura era realmente negra e bem definida, contrastando com o intenso brilho da galáxia; o núcleo apesar de não estrelar, lembrava Sírius visto num telescópio de 25 cm e chegava a ofuscar.
NGC 4565 em Com: muito brilhante, com núcleo tão reluzente quanto o de M104.
AGC 1656, Coma Galaxy Cluster: 16 galáxias no campo com visão direta.
M64: enorme faixa escura, larga e oblonga, muito brilhante e grande.
M51: não cabia dentro do campo da ocular, um pouco menos rica em detalhes que a foto da capa da S&T de abril de 2001 e sem cor, uma visão para nunca ser esquecida...
M3: apenas o núcleo desta globular cabia no campo da ocular, totalmente resolvível, apesar da leve granularidade causada por estrelas bem fracas.
NGC 6027, Seyfert's Sextet em Ser: o mais compacto entre os 100 grupos catalogados por Paul Hickson; 6 galáxias com visão direta; 2 delas marcadamente mais brilhantes, exatamente aquelas que conseguimos observar no telescópio de 25 cm como pequenas manchas.
NGC 6058 em Her: nebulosa planetária grande e bastante brilhante, assim como a sua estrela central; circular, com a camada externa mais brilhante que as outras.
NGC 6369 em Oph: estrela central bem brilhante, lembra M57 observada com 300x nos nossos "minúsculos" telescópios de 25 cm.
M2-9, Minkowski's Butterfly em Oph: nebulosa planetária bipolar pequena e bem estreita com três componentes, estrela central bem brilhante, um lado da "asa" mais brilhante que o outro, as suas cores tão conhecidas das fotos do Hubble não foram detectadas.
NGC 6543 em Dra: nebulosa planetária Olho do Gato, parecia muito mais brilhante que nas fotos!; completamente luminosa, lembrando um saco de leite opaco, com uma das extremidades apresentando pequena reentrância pouco menos brilhante em forma de V invertido; estrela central bastante brilhante.
M57, Nebulosa do Anel: simplesmente gigantesca com 891x; pela primeira vez conseguimos observar a estrela central, ridiculamente fácil; ocupando mais de metade do campo, o contraste entre a parte exterior bem escura por não pertencer à nebulosa, e as camadas interna e externa dela com dois graus de luminosidade distintos era impressionante, sendo que a camada externa era alongada e mais fraca em um dos lados.
NGC 6537 em Sgr: nebulosa planetária bipolar Aranha Vermelha, com a sua região central brilhante, porém as quatro pernas da aranha foram visualizadas com dificuldade apenas com visão periférica ou "averted vision"; não conseguimos observar a estrela central de magnitude 19,5 devido a falta de contraste com a própria nebulosa.
Marte: infelizmente e como já era esperado, um refletor de 2.1 metros não foi feito para observar planetas; tudo que vi foi uma bola vermelha dançando na minha frente, até a calota polar estava difícil de se distinguir; experimentei pela buscadora de 10 cm e estava melhor, mas não tanto quanto conseguimos observar daqui do Brasil; lá Marte está baixo no horizonte durante esta aparição.


McDonald Observatory

Visita técnica às instalações dos telescópios pertencentes à Universidade do Texas at Austin:

HET (Hobby-Eberly Telescope) de 11,0 metros, feito de 91 segmentos idênticos que proporcionam uma área efetiva de 9,2 metros, é o terceiro maior telescópio do mundo. Técnicas de construção e um projeto inovador permitiram que este telescópio fosse construído por apenas 13,5 milhões de dólares, cerca de 16% do custo de um dos telescópios Keck, pois a maioria dos componentes do HET (exceto instrumentos) são encontrados comercialmente. À noite vemos o seu feixe de laser verde sendo utilizado dez minutos a cada hora, para ajustar os 91 segmentos através de três atuadores em cada, compensando os efeitos do "seeing" e temperatura com uma precisão da ordem de dezenas de nanometros.
 
 


Harlan Smith Telescope de 2,7 metros, foi usado pela NASA na preparação das missões Voyager.




Otto Struve Telescope de 2,1 metros, é o que alugamos por uma noite para nossas observações. Este telescópio tem qualidade ótica superior ao Harlan Smith de 2,7 metros para observações visuais. Ambos estão situados no Mt. Locke, um pouco afastado do Mt. Fowlkes onde está localizado o HET. A imagem dos objetos que tivemos o privilégio de observar através do Otto Struve jamais sairão das nossas memórias...

Observamos também o Sol em um Meade 16” LX-200 que estava disponível para os visitantes.
 
 



VLBA Station do Texas

Radiotelescópio de 27 metros pertencente à Very Long Baseline Array, grupo de 10 radiotelescópios idênticos que desde 1993 se estendem por mais de 8 mil quilômetros, desde o Havaí até a ilha de St. Croix no Caribe. Cada um deles pesa 240 toneladas e tem a altura de um prédio de 10 andares. Embora operados remotamente pela Internet do centro de contrôle localizado em New Mexico, tivemos a sorte de termos como guias os técnicos da manutenção semanal que lá estavam presentes.
 
 

National Solar Observatory

Já no estado do Novo México, chegamos no meio da tarde e apesar dos 2800 metros de altitude, não fazia frio. Visitamos:

Richard Dunn Solar Telescope, com uma altura de 41 metros, além dos 72 metros que ficam abaixo do nível do solo, onde está o espelho de 1,63 metros.
 

Evans Solar Facility, com um coronógrafo de 16" e um celostato de 12".
 

Hilltop Dome, onde uma foto do Sol é tirada a cada minuto ao longo do dia, em visível e em 6563 Angstroms, servindo como arquivo para qualquer evento solar que seja descoberto posteriormente pelo Dunn Telescope ou pelos equipamentos do Evans.

Grain Bin Dome, abrigou o primeiro telescópio do NSO desde 1950 até 1963. Desde 1995 tem sido utilizado para observações noturnas de residentes das proximidades.
 
 

Apache Point Observatory


 

ARC (Astrophysical Research Consortium) Telescope de 3,5 metros, à esquerda. Com um design leve e inovador, já foi utilizado para rastrear misseis. É utilizado na maior parte do tempo via Internet, apesar de que durante a nossa visita o usuário estava presente. Tratava-se de um astrônomo irlandês que havia conseguido 3 noites e meia para a sua pesquisa na área de formação estrelar. O ARC também dá apoio a algumas observações de quasares mais distantes descobertos pelo SDSS abaixo.
 
 
 

SDSS (Sloan Digital Sky Survey) Telescope de 2.5 metros. Está conduzindo o conhecido mapeamento tridimensional do Universo e já descobriu 26 dos 30 quasares mais distantes hoje conhecidos, inclusive os dois mais distantes com z = 6,0 e 6,2. Pretende mapear em detalhe 25% do céu e medir as distancias de mais de um milhão de galáxias e quasares. Tem como seu auxiliar um pequeno telescópio de 51 cm, onde uma segunda astrônoma australiana estava monitorando continuamente o brilho e transparência do céu.
 

New Mexico State University Telescope de 1,0 metro. Utiliza os conceitos inovadores do ARC de 3,5 m e 50% do tempo é operado desde o campus da Universidade por alunos de pós-graduação.
 
 

NASA Orbital Debris Observatory

Hospeda o Liquid Mirror Telescope de mercúrio com 3,0 metros. O espelho gira a 10 r.p.m. e consiste de 14 litros de mercúrio, formando uma camada de 1,6 mm de espessura. Este é atualmente o 17º maior telescópio do mundo. Tivemos o privilegio de passar uma noite acompanhando o trabalho do astrônomo que está lá permanentemente desde a sua criação. Para chegarmos tivemos que passar por varias estradas sem sinalização e como o por do Sol se aproximava, ficamos preocupados em não conseguirmos chegar a tempo de ver o espelho de perto, pois as observações estavam programadas para começar bem antes do twilight astronômico. Eis que repentinamente surgiu a cúpula no meio da floresta que ainda é habitada por ursos. O local está praticamente escondido do publico e para nossa surpresa, o astrônomo veio pessoalmente abrir o portão a uns 200 metros do prédio! Passamos apenas alguns minutos junto do espelho devido à alta toxidade do mercúrio e subimos para visitar as outras instalações do observatório. À noite acompanhamos atentamente cada passo das observações, que nos era explicado em detalhes. Jamais esperei sermos recebidos com tamanha hospitalidade. Passamos a primeira metade da noite observando aglomerados de galáxias e quasares com z = 0,5, ou seja, cujos fótons viajaram 5 bilhões de anos-luz, como parte do projeto de Paul Hickson no mapeamento de grandes estruturas do Universo; naquela época os braços espirais das galáxias eram menos desenvolvidos e mais caóticos, e espirais barradas eram mais raras. Na segunda metade da noite, o fantástico espelho de mercúrio foi utilizado para acompanhamento de destroços de naves que orbitam a Terra, utilizando uma câmera filmadora (30 quadros/seg.) com intensificador de imagem. Destroços de até 1 cm de diâmetro podem ser detectados desta forma (radares detectam objetos maiores que 10 cm), a um custo de quase 1/20 do que seria investido em um telescópio tradicional.

As duas câmeras CCD, os filtros e a filmadora foram trocados do conforto e segurança da sala de controle através de um simples toque de botão. Foi uma noite que nunca esqueceremos!
 
 

LINEAR

Situado dentro de uma base militar no meio do deserto do Novo México, fotografias são proibidas num raio de mais de um quilômetro. O Lincoln Near Earth Asteroid Research tem sido o grande descobridor de asteróides e cometas, apesar de construído originalmente para rastrear satélites em orbita terrestre. Conta com dois telescópios de 1,0 metro. Desde março de 1998 (até 5 de janeiro de 2003) já descobriu 100 cometas e mais de 160 mil asteróides, dos quais quase mil são NEOs. Estima-se que existam aproximadamente 1.250 asteróides com pelo menos 1 quilometro de diâmetro e com alguma chance de se chocar com a Terra. Para catalogar 90% do total destes, o LINEAR deverá levar mais 40 anos de busca.
 
 

National Radio Astronomy Observatory

O VLA (Very Large Array) popularizado no filme Contacto, consiste em 27 radiotelescópios de 25 metros cada e está em operação desde 1980. Já descobriu água no planeta Mercurio, micro-quasars em nossa Galaxia, e aneis de Einstein induzidos gravitacionalmente ao redor de galaxias distantes. Foi impressionante vermos todas aquelas antenas gigantescas se movendo simultaneamente, inicialmente desordenadas e em varias direções diferentes, para finalmente pararem apontando exatamente para a mesma direção no céu. As antenas podem estar dispostas em quatro configurações diferentes, se deslocando sobre trilhos e ocupando uma extensão desde 1 Km até 36 Km, a depender da resolução e do campo de visão com que se queira trabalhar. Na foto à esquerda, uma das antenas sendo submetida a manutenção periódica. Existem planos para nove antenas que serão conectadas às já existentes, vindo a formar o que será conhecido como “Expanded VLA”.
 
 

Lowell Observatory

Realizamos nossa visita dois dias após Brian Skiff (astrônomo do Lowell desde os anos 80) ter descoberto o seu quinto cometa em apenas 3 anos. No entanto, a simplicidade é tanta que ele sequer tocou no assunto; parecia não haver acontecido nada fora do comum. O LONEOS, Lowell Observatory Near Earth Object Search, já descobriu 23 cometas desde 1998 (até 17 de setembro de 2002), sendo que duas das descobertas foram realizadas por Brian Skiff no espaço de apenas dois dias!

Refrator Clark de 61 cm construído em 1894, com o qual Lowell observou os "canais" de Marte. Esta jóia ótica foi também utilizada nos anos 60 pela NASA para mapear a superfície da Lua (na verdade desenhar, pois observadores visuais percebem mais detalhes do que podemos ver nas fotos) para as missões Apollo. Tanto a cúpula quanto o piso foram feitos de madeira de pinho, do tipo que se vê em uma antiga casa no estilo Vitoriano. Para o caso de incêndio havia uma ferramenta (que nunca precisou ser utilizada) feita para remover rapidamente a lente e célula do telescópio que seria invertido em poucos segundos. Acoplados ao grande telescópio estão três outros refratores Clark: um de 30 cm, um outro menor e uma buscadora. Próximo à entrada da cúpula do Clark, está o tumulo de Percival Lowell, sobre o qual alguns astrônomos do observatório costumam brindar eventualmente as suas descobertas.


Astrógrafo Plutão de 33 cm com o qual o planeta foi descoberto.

Telescópio Lowell de 53 cm, estava sendo utilizado para fotometria de algumas estrelas de comparação para BM Sco, a variável vermelha em Messier 6.
 
 

Barringer Meteor Crater

Visitamos pela primeira vez. Aqui foram treinados os astronautas das missões Apollo à Lua. Nos anos 60, a tese de Ph.D. de Eugene Shoemaker chocou o mundo ao determinar que a cratera havia sido formada como resultado do impacto de um objeto interplanetario 50 mil anos atrás. Embora com mais de 1.200 metros de diametro e 200 metros de profundidade, há uma ilusão que nos faz achar a cratera pequena a princípio, chegando até mesmo a decepcionar. Entretanto, só pelo fato de necessitarmos de uma luneta para conseguirmos ver uma figura de astronauta em tamanho natural localizado no meio da cratera, percebemos as suas verdadeiras dimensões e nos damos conta do perigo real de um impacto. A cratera pertence à família Barringer que a explora comercialmente cobrando 10 dólares por visita (!), já que o governo do Arizona se recusou a comprá-la no passado, justificando que o Grand Canyon já era suficiente como atração turística.
 
 

Kitt Peak

Abriga uma "fazenda" de 24 telescópios pertencentes a onze observatórios diferentes. Passamos sete horas visitando os seguintes:

Na foto à esquerda vemos a cúpula do Telescópio Mayall de 4,0 metros, pertencente ao próprio Kitt Peak National Observatory. De estrutura bastante alta, aparenta abrigar um espelho bem maior, se comparado aos observatórios visitados em Apache Point.
Na foto à direita, a cúpula do WIYN (Wisconsin, Indiana and Yale University & NOAO) Telescope de 3,5 metros.
 
 
 
 

McMath-Pierce Solar Telescope, o maior telescópio solar do mundo. O heliostato principal tem 2,0 metros de diâmetro, os outros dois auxiliares tem 90 cm cada. É simplesmente gigantesco, surpreende tanto internamente pelas suas dimensões quanto externamente pela sua beleza. No momento da nossa visita estava trabalhando um astrônomo, que apesar de idoso e já aposentado, observava de pé o tempo todo e sem operadores ou auxiliares.
 
 
 
 


Telescópio de 2,1 metros pertencente ao Kitt Peak National Observatory. Impressiona a versatilidade com que se acoplam a ele as 4 câmeras/espectrômetros que trabalham tanto no visual quanto no infravermelho. Anexo a este está um outro telescópio de 90 cm, utilizado como "Coudé Feed", que pode ser visto na extrema esquerda da foto maior.
 
 

Acima, na foto da esquerda, o Telescópio de 1,3 metros, pertencente ao Kitt Peak National Observatory. O Burrell Schmidt Telescope de 60 cm, pertencente à Case Western Reserve University, na foto do centro. Na foto da direita, o ETC/RMT (Explosive Transient Camera / Rapidly Moving Telescope) de 18 cm; pertencente ao MIT / NASA, é utilizado exclusivamente no acompanhamento de GRBs e completamente robotizado. Podemos ver ao fundo e à direita a cúpula do Telescópio Mayall.
 
 

Na foto da esquerda, os dois Spacewatch Telescopes utilizados na busca de asteróides e cometas. Em primeiro plano está a cúpula do moderno telescópio de 1,8 metros, estando ao fundo a cúpula do mais antigo de 90 cm, o pioneiro na descoberta de cometas com CCD. Desde 1991 o Spacewatch já descobriu 19 cometas (até 10 de janeiro de 2003).

Na foto da direita vemos o Bok Reflector de 2,3 metros pertencente ao Steward Observatory, Universidade do Arizona.
 
 

SARA (Southeastern Association for Research in Astronomy) Telescope de 90 cm.
Solar Vacuum Telescope de 70 cm.
WHAM (Wiscosin Hydrogen Alpha Mapping) Telescope de 60 cm.
NRAO, um pouco abaixo na mesma montanha. Visitamos o radiotelescópio de 25 metros idêntico ao que está no Texas e faz parte da VLBA e o Millimeter-Wave Radio-Telescope de 12 metros.
Um pouco mais adiante estão o Hiltner Telescope de 2,4 metros e o McGraw Hill Telescope de 1,3 metros, ambos pertencentes ao MDM Observatory (Michigan Dartmouth & MIT). Interessante notar que em Kitt Peak há um observatório privado com um telescópio de 1,2 metros, ao qual não tivemos acesso. Pertence a um milionário que tem Ph.D. em astronomia.
 
 

Whipple Observatory

A grande emoção, além de conhecer esses enormes telescópios, é a experiencia de chegar até eles através das montanhas em antigo território indígena onde estão localizados. À medida que vamos subindo e aprofundando o nosso contato com a floresta e a natureza, temos a impressão de estarmos mais próximos do céu. Aqui em Mt. Hopkins visitamos os seguintes telescópios:

MMT (Multiple Mirror Telescope) desde 1979 até 1998 era constituído de seis espelhos de 1,8 metros com uma área efetiva de 4,5 metros. Este era o terceiro maior telescópio do mundo e o maior projetado para trabalhar no infravermelho. Embora mantendo o seu nome original, desde o ano 2000 o MMT possui um único espelho de 6,5 metros. O telescópio está contido em um prédio retangular de quatro andares relativamente compacto, pois o cume da montanha é estreito. Toda a estrutura de 500 toneladas gira em azimute a uma velocidade máxima de 90 graus por minuto, quase imperceptível para quem esteja dentro do prédio.
 


Optical Gamma-ray Telescope de 10 metros, detecta radiação Cherenkov, flash azul que dura alguns bilionésimos de segundo e é resultado do choque de raios gama (e cósmicos) de altíssima energia com a atmosfera. Detectou a primeira fonte galáctica de raios gama em Messier 1 em 1989 e a primeira fonte extragaláctica em Markarian 421 em 1992. Até hoje permanece sendo o maior telescópio de raios gama do mundo.
 
 
 
 
 

Na foto à esquerda, o 2MASS (Two Micron All Sky Survey) de 1,3 metros, em primeiro plano. Completou recentemente o seu programa de mapeamento do céu no infravermelho, iniciado em 1997. Ao fundo, as cúpulas dos telescópios do FLWO (Fred Lawrence Whipple Observatory) de 1,5 metros e 1,2 metros. Na foto da direita, um dos telescópios FLWO com instrumentos conectados.
 

IOTA (Infrared Optical Telescope Array) Telescopes, consiste em três instrumentos de 45 cm separados por 38 metros; tem sido utilizado em conjunto com o Keck I em Mauna Kea.
 
 

Palomar Mountain

Visita técnica de um dia inteiro, com um almoço incrível para 43 pessoas no interior da cúpula do Telescópio Hale de 5,1 metros. O espelho gigantesco havia sido recém-aluminizado e foi totalmente lacrado para que os gazes dos alimentos não o alcançassem. O nosso churrasco foi preparado fora da cúpula e trazido para dentro posteriormente. Tivemos uma tarde de palestras de cada cientista do Observatório, preparadas especialmente para os participantes do Congresso da AAS. O Telescópio Hale, que foi o maior do mundo entre 1948 e 1975, atualmente está preparado para fotografar GRBs com um aviso prévio de apenas 15 minutos, ocasião na qual qualquer trabalho que esteja sendo executado será interrompido. Além disto está sendo utilizado também para espectroscopia de asteróides do Cinturão de Kuiper.


PTI (Palomar Testbed Interferometer) é formado por três telescópios de 50 cm separados por 110 metros, tendo a capacidade de separar estrelas duplas com até 25 milissegundos de arco. Está testando tecnologia e conceitos que serão utilizados nas missões espaciais StarLight e SIM (ver JPL / NASA abaixo).
 
 

Oschin Schmidt Telescope de 1,2 metros, foi utilizado na década de 50 para fazer o "POSS" com placas fotográficas de 6,6 graus de arco. Atualmente é utilizado exclusivamente na busca de NEOs (asteróides e cometas) e mais conhecido como NEAT/Palomar (Near-Earth Asteroid Tracking), juntamente com outro telescópio de 1,2 metros, o NEAT/MSSS no Maui Space Surveillance Site, Havaí. O NEAT já descobriu 29 cometas desde março de 1996 (até 7 de dezembro de 2002).
 
 

Mt. Wilson

Aqui outra surpresa nos esperava: o Observatório foi fechado apenas para 70 dos participantes do Congresso da AAS, onde assistimos a três curtas apresentações do diretor e cientistas residentes. Estes estiveram disponíveis durante todo o dia, nos servindo de guia e nos dando acesso irrestrito às instalações de todos os telescópios!

Hooker Telescope de 2,5 metros, foi o maior do mundo entre 1917 e 1948, possuindo atualmente novos instrumentos de ótica adaptiva.

Telescópio do Projeto HK de 1,5 metros, usado há quase 30 anos exclusivamente para monitorar a atividade cromosférica de uma enormidade de estrelas frias semelhantes ao nosso Sol.

TIE (Telescopes In Education) de 61 cm (foto à esquerda) é utilizado roboticamente por estudantes de segundo grau do mundo inteiro há mais de cinco anos. Observamos proeminências no Sol com filtro Daystar através da sua buscadora.

CHARA Array (Center for High Angular Resolution Astronomy) consiste em 6 telescópios de 1,0 metro espalhados pela montanha, o que permite 15 configurações diferentes com uma resolução equivalente a um espelho de até 354 metros de diâmetro. Este é notadamente o grande orgulho dos cientistas do Mt. Wilson de hoje, que nos mostravam entusiasmados o funcionamento do equipamento. Deverá estar completamente operacional em 2002, quando será capaz de resolver detalhes da ordem de 200 microssegundos de arco, tornando-se o mais potente interferômetro do mundo em visível e infravermelho.
 


Torre Solar de 60 pés construída em 1907. É parte de uma rede mundial que monitora heliosismologia, fenômeno oscilatório de 296 segundos descoberto neste telescópio em 1960. Com este mesmo instrumento já havia sido descoberto o efeito Zeeman dos campos magnéticos nas manchas solares em 1908, o que motivou a construção de uma outra torre descrita abaixo.

Torre Solar de 150 pés (foto) completada em 1912 após a sua lente de 30 cm f/150 ter sido entregue duas vezes com defeito de fabricação. Foi a maior torre solar do mundo até 1962 com a construção do McMath-Pierce em Kitt Peak. Investiga mudanças de longo prazo na atividade magnética do Sol.
 
 




JPL / NASA

O nosso grupo de 14 astrônomos foi permanentemente escoltado por duas oficiais de segurança do JPL e fomos proibidos de tirar fotos. Tivemos como nossos guias um cientista para cada laboratório visitado: o cientista do projeto TPF, Charles Beichman, o diretor do programa Origins, Harley Thronson, além de outros cientistas americanos, um francês, um alemão e um indiano dos quais não me recordo os nomes.
Realizamos visita técnica a alguns dos laboratórios onde estão sendo testados os conceitos a serem aplicados nos futuros observatórios espaciais com lançamentos previstos entre os anos de 2005 e 2020 (não se aplicando portanto ao SIRTF e SOFIA, que deverão entrar em operação em 2003 e 2004 respectivamente):

StarLight

Conhecida anteriormente como "Space Technology 3", a StarLight tinha lançamento previsto para 2006. A missão se concentrará entretanto, em demonstrações em terra das tecnologias precursoras das missões de interferometria. Consistirá da simulação de duas naves "voando" em formação precisa. Irá testar tecnologias e conceitos de vôo inéditos, com os seus dois telescópios de 30 cm trabalhando com uma resolução equivalente a um espelho de 125 metros de diâmetro. Esta nova tecnologia exigirá o controle da distancia e do ângulo entre as duas naves com uma precisão melhor que 1 cm e 1,5 minutos de arco respectivamente.

SIM, Space Interferometry Mission (2009)

Poderá operar em dois modos: no primeiro, irá determinar posições e distancias de objetos galácticos e extragalácticos mais brilhantes que magnitude 20 com uma precisão de 4 microssegundos de arco. No segundo modo, identificará estrelas que possuam sistemas planetários com uma precisão de 1 microssegundo de arco, detectando planetas de até 3 massas da Terra a uma distancia de 26 anos-luz, e de até 20 massas da Terra a uma distancia de 100 anos-luz. A SIM utilizará o mesmo método indireto atualmente usado para descobrir os 63 planetas extra-solares conhecidos (agora mais de 100 planetas, em janeiro de 2003), abrindo caminho para a missão TPF e outras que irão fotografar os planetas descobertos pela SIM. Terá uma missão de 5 anos e uma órbita heliocêntrica, 17 milhões de Km "atrás" da Terra.

JWST, James Webb Space Telescope (2009)

O telescópio James Webb, anteriormente conhecido como NGST (Next Generation Space Telescope) será o substituto do telescópio Hubble, porém com um espelho de 6 metros de diâmetro, pesando 25% e também a um custo de apenas 825 milhões de dólares, 40% do HST. Terá um protetor contra a radiação solar de 12 x 28 metros, pois operará também no infravermelho a uma temperatura de 240ºC negativos. A sua vida útil será de 5 a 10 anos, mais curta que a do HST pois estando em uma orbita a 1,5 milhões de Km da Terra não poderá ser submetido a manutenção periódica.

TPF, Terrestrial Planet Finder (entre 2012 e 2015)

Missão de 5 anos que irá tirar as primeiras fotos de outros sistemas planetarios. Será capaz de fotografar planetas do tamanho da Terra orbitando estrelas a distancias de até 45 anos-luz. Medirá o tamanho e a temperatura dos planetas descobertos, além de detectar sinais químicos de vida, como a presença de dióxido de carbono, água, ozônio e metano. Somente será decidido qual das duas arquiteturas será utilizada em 2005. A primeira seria constituída de quatro telescópios pequenos operando no infravermelho e voando em formação, os quais transmitiriam os seus dados a uma quinta nave que combinaria os sinais antes que fossem enviados à Terra, com o brilho da estrela reduzido por um fator de 1 milhão de vezes. A segunda teria um único telescopio de mais de 4 metros operando na faixa visivel e com um coronógrafo capaz de reduzir o brilho da estrela em mais de 1 bilhão de vezes. Ambas as arquiteturas permitiriam a detecção de planetas em orbitas bem proximas à estrela.

LF, Life Finder (entre 2015 e 2019)

Após a TPF identificar planetas habitáveis, a Life Finder utilizará de 6 a 10 telescópios de 25 metros de diâmetro para detectar elementos químicos nas suas atmosferas que revelem atividade biológica, utilizando os mesmos princípios da TPF.

PI, Planet Imager (entre 2016 e 2020)

Após encontrado um planeta com vida pela LF, a PI irá tirar fotos do mesmo com uma esquadra de aproximadamente uma centena de telescópios de 8 metros de diâmetro voando em formação a distancias de até 6 mil quilômetros um do outro, alcançando assim o poder de resolução de um telescópio de 360 quilômetros de diâmetro.
 
 

198º American Astronomical Society Meeting

Acredito que vocês devam ter acompanhado pela TV, jornais e Internet as descobertas que foram amplamente divulgadas entre 3 e 7 de junho. Creio que nesta semana aprendi mais do que em anos de leitura e estudo. Foram mais de 800 apresentações e 1300 participantes, se alguém se interessar por algum tópico específico favor entrar em contacto.


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